A Morte e o Amor
A morte é o que há de mais democrático em nossa vida, a morte, o amor e a arte.
O ser humano, com as crenças sobrevindas das experiências de sua memória, ou seja, com sua história pessoal e sócio-cultural, molda a percepção e os conceitos que tem de si mesmo e do mundo no qual se insere. Por conseguinte ele molda suas idéias, incorpora a linguagem, e se estrutura enquanto pessoa, simbolizando e significando impressões e sentimentos diversos; resultando em associações e estados emocionais específicos que serão percebidos na maneira como irá lidar com os limites que a noção de realidade impõe a si mesmo e aos outros a sua volta.
Em nossa cultura ocidental a morte é rejeitada, incompreendida e aterrorizadora. A morte, para nós é adiada e pode ser até mesmo odiada, a morte é para nós o oposto da vida e da luz. Ela é perversa e sem sentido porque vem e nos tira as pessoas que amamos. Mostra que somos impotentes e limitados. Revela nossa total falta de controle da vida e dos acontecimentos advindos dela. Expõe, sobretudo o egoísmo que resvala em nossa dor. E as lágrimas caem para dentro de um vazio sem fim.
A gente enfatiza o “lado” bom das coisas, e sempre em detrimento do que é mau. Isso é visto em nossa cultura que, por exemplo, nomeia uma operadora de celular de “VIVO”, pois que representa tudo o que não é morte. Possui termos que definem objetos, serviços, personagens infantis, entre outros, como: Olho vivo, chão vivo, e têm também jogos de futebol ou atrações artísticas ao VIVO. Além disso, se usa outros nomes interessantes correlatos, como: OI! (cheguei e não fui), TIM (jovem e não velho), CLARO (não escuro) e por aí vai construindo na linguagem, na semiótica, e na mente caminhos e sementes que nos afastam cada vez mais daquilo que consideramos como o mal, a morte.
A gente afasta o mal com muitos subterfúgios. Nas tribos antigas, e até hoje em muitas culturas, os demônios manifestos nas doenças e na morte era acalmado pelos feiticeiros e xamãs que em contato com o mundo das sombras intercedia pelo moribundo, o que resultava em cura ou quando não, dependendo de outros fatores. A doença, e o mal vinham de fora. A ameaça estava sempre à espreita, desde os primórdios dos tempos. E a gente criou barreiras contra tudo àquilo que nos trazia o grande medo. O medo de desaparecer, de não ser, de não estar. O medo do nada. Do vazio. O medo da morte.
A vida se construiu em meio ao medo. Com um pensamento intenso de que era preciso merecer estar vivo para não morrer. A vida então se organiza em Instituições, Crenças, Idéias, Mecanismos, Associações, Histórias para que a gente se distraia da angústia primordial, que é a de saber que há O FIM.
Contudo, por mais que se corra, por mais que se construa muros e mecanismos para nos afastar do mal. A morte reaparece triunfante. Sorri entre os dentes, e traz a mensagem de nosso limite. O limite na psicanálise é o que nos estrutura enquanto humanos. Quando se conhece o limite não se “perde” em um espaço caótico da não realidade, o que pode gerar a alucinação e o delírio ou uma dissociação, que é quando se sai de si, ou quando se pensa ser outra pessoa que não você mesmo.
Mas a psicologia como tudo o mais é construída a partir da base humana. E o que há na base humana? O medo de ver o óbvio. O medo de se reconhecer finito. O medo da morte. É Interessante pensar que justamente a morte pode nos unir, a todos nós, na consciência da vida, pois a morte revela a todos nós, nossa igualdade perante o outro. Somos todos, sem exceção, seres finitos. Seres finitos enquanto seres humanos. Letrados e analfabetos, inteligentes e burros, pobres e ricos, mulheres e homens, crianças e velhos, petistas e psdebistas, bons e maus, pretos, amarelos, brancos, artistas ou desajeitados, bonitos e feios, amáveis ou antissociais, tímidos e introvertidos ou extrovertidos, competitivos ou cooperativos. Todos nós, fragmentos da vida, compreendidos como fragmentados; e adjetivados por meio de conceitos, grupos, estereótipos e clãs. Ninguém é melhor por se deitar em um caixão de ouro. Ninguém é pior por descansar em um caixote de madeira velha. A morte legitima a vida. Mais do que isso, a morte gera o grande paradoxo existencial, nos faz questionar o sentido da vida, é um alerta para a falta de sentido da vida e ao mesmo tempo é a única coisa que nos possibilita descobrir a vida. É A escuridão que nos aproxima da luz.
A vida só existe na morte. O medo que temos do aniquilamento nos faz ir além daquilo que é perecível com o fim do corpo. Mostra quem somos nós ou quem não somos nós. E possibilita a transcendência, que é quando se sabe que não há o limite material, que não se pode segurar um pensamento, que não se pára uma consciência, que não se toma o que há “dentro” do humano, pois mesmo dentro de mil prisões e grilhões a mente pode viajar sem fronteiras, e para além da fronteira.
Dessa maneira, assisto o amor. O amor é como a morte, nivela as pessoas que se amam. Quando a gente está sob a égide dEle, não se importa com conceitos. O amor convida à união de todos os conceitos opostos e nos une, a todos nós, na eternidade. A morte e o amor; são A METAFORA da vida.
Serei e já Sou, a Vida, o AMOR!
Nenhum comentário:
Postar um comentário